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Diabólica – Parte final 17/12/2009

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Autor: Nelson Rodrigues

Livro: A vida como ela é

Conto: Diabólica

Parte Final

SONSA

No dia seguinte. Alicinha passa por ele e pisca o olho: “Deixei de ser criança!
Já não sou mais criança!” Isso poderia significar pouco ou muito. De Qualquer forma, desconcertado, ele chegou a transpirar. Mais dois ou três dias, e Alicinha vai procurá-lo no escritório. Senta-se a seu lado; diz: “Você tem medo de mim?” O pobre-diabo gaguejou: “Por quê?” E ela, com um olhar intenso, não de criança, mas de mulher: “Tem, sim, tem!” Parece divertida. E, subitamente, séria, ergue-se e aproxima-se. Estavam no gabinete de Geraldo. Alicinlia inclina-se, pede:

— Um beijo.

Lívido, obedeceu. Roçou, de leve, a face da pequena. Ela insistiu: “Isso não é
beijo. Quero um beijo de verdade.” Geraldo levanta-se. Recua, apavorado como se aquela garota representasse uma ameaça hedionda. Numa espécie de soluço, diz:
“Eu amo minha noiva! Amo tua irmã!” E ela, diante dele: “Só um!” Petrificado,
deixou-se beijar uma vez, muitas vezes. E não podia compreender a determinação implacável de uma menina de 13 anos. Antes de sair, ela diria: “Você é meu também!” E o ameaçou, segura de si e da própria maldade: “Vou te avisando: se começares com coisa, eu direi a todo mundo que houve o diabo entre nós!” Geraldo arriou na cadeira; uivou:
— D e m ô n i o ! D e m ô n i o!

O BEIJO
Foi, desde então, um escravo da menina. E, coisa interessante: ao mesmo
tempo que se sentia atraído, tinha-lhe ódio. Sentia, nela, uma precocidade hedionda.
E, por outro lado, era um fraco, um indefeso, um derrotado. Até que, uma tarde, entra numa Delegacia; soluçando, anuncia: “Acabei de matar minha cunhada, Alice de tal, num lugar assim, assim.” Ainda prestava declarações, quando Dagmar invade a Delegacia. Passara pelo lugar em que Alicinha fora assassinada; vira a irmã, de bruços, com o cabo do punhal emergindo das costas. Então, fora de si, correu para a Delegacia. E houve uma cena que ninguém pôde prever. Avançou, apanhou entre as mãos o rosto do noivo e o beijava, na boca, com loucura. Foi agarrada, arrastada.
Debatia-se nos braços dos investigadores. Gritava:
— Oh, graças! Graças!…

Diabólica – Parte 2 10/12/2009

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Autor: Nelson Rodrigues

Livro: A vida como ela é

Conto: Diabólica

PARTE 2

FAMÍLIA
Mas quando Dagmar confessou, aos pais, que advertira o noivo, foi um deus-nos-acuda. A mãe pôs as mãos na cabeça: “Você é maluca?” Quanto ao pai, passou lhe um verdadeiro sabão:
— Foi um golpe errado. Erradíssimo!
— Eu não acho.
O velho tratou de ser demonstrativo: “Você pôs maldade onde não havia!
Despertou a idéia do seu noivo!” Replicou, segura de si:
— Papai, eu sei muito bem onde tenho o meu nariz.
O pai andava de um lado para outro, nervoso. Estacou, interpelando-a:
— E agora com que cara o teu noivo vai olhar pra tua irmã? Vocês, mulheres, enchem! E, além disso, parta do seguinte princípio: uma irmã está acima de qualquer suspeita! Família é família, ora, bolas!
E Dagmar, obstinada:
— Meu pai, gosto muito de Alicinha. E uma pequena ótima, formidável e
outros bichos. Mas intimidade de irmã bonita com cunhado não! Nunca!
CIÚMES DOENTIOS
Num instante, criou-se o caso no seio da família. Não houve duas opiniões.
Segundo todo o mundo, aquilo não era normal, não podia ser normal. Um dos grandes argumentos foi a idade de Alicinha: “Como pode? Como pode?” O pai, mascando o charuto, argumentava: “Que você desconfie de todo mundo, até de poste, vá lá! Acho que uma mulher deve defender com unhas e dentes o seu homem! Mas irmã é outra coisa! Irmã é diferente! Na sua tristeza, ela replicava: “O que eu não sou é burra!” E o pai: “Nem sua irmã, nem seu noivo merecem isso!”
Por fim, já se falava, abertamente, em caso. Um primo da pequena, que era pediatra, sugeriu:
— Por que é que não levas Fulana a um psiquiatra?
Ela acabou indo, vencida pelo cansaço da própria vontade. Lá, o psiquiatra
depois de um interrogatório medonho, chega à seguinte conclusão: “O negócio é extrair os dentes!” O pai da pequena caiu das nuvens, chorou, amargamente, o dinheiro da consulta:
— Mas que animal! Que palhaço! — e, jocoso, criava o problema: — Isso é
psiquiatra ou é dentista?
Mas o fato é que, pouco a pouco sem sentir e sem querer, Dagmar foi-se
deixando dominar pela pressão da família. O próprio noivo colaborou nesse sentido.
Era hábil:
— Você não precisa ter medo de mulher nenhuma. Pra mim, não existe no
mundo mulher mais bonita do que você. Palavra de honra!

O MAIO

Só quem não se dava por achada e parecia ignorar o disse-que-me-disse era a própria Alicinha. Tratava a irmã e o cunhado com a mesma naturalidade. E era tão sem maldade, tão inocente, que, certa vez, comprou um maio fabulosíssimo e apareceu, com ele, na sala, diante de Dagmar e do Geraldo. Foi uma situação pânica.

Por um momento, o embasbacado cunhado não soube o que dizer, o que pensar. Empalidecera e… Girando como um modelo profissional, Alicinha perguntava:
— Que tal?
Por uma fração de segundo, Dagmar pensou em explodir. Mas convencera-se de que precisava reeducar-se; dominou o próprio impulso. Com um máximo de naturalidade, admitiu: “Bonito!” O atônito, o ofuscado, o desgovernado Geraldo, gemeu:
“Infernal!” Mas quando deixou a casa da noiva, nesse dia, ia numa impressão profunda.
Mais tarde, no bilhar, com uns amigos, fez o seguinte jogo de palavras:
— Não há mulher mais bonita que uma cunhada bonita!

continua…

Diabólica – Parte 1 08/12/2009

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Autor: Nelson Rodrigues

Livro: A vida como ela é

Conto: Diabólica

PARTE 1

Na noite do pedido oficial, Dagmar, de braço com o noivo, foi até a janela; que se abria para o jardim. Então, com uma tristeza involuntária, uma espécie de presságio, suspirou. E foi meio vaga:
— Caso sério! Caso sério!
E Geraldo, baixo e doce:
— Por quê?
Dagmar vacila. Finalmente, tomando coragem, indica com o olhar:
— Estás vendo minha irmã?
— Estou.
Durante alguns momentos, olharam, em silêncio, a pequena Alicinha, de 13
anos, que, na ocasião, apanhava uma flor, no jarro, para dar não sei a quem. Dagmar pergunta: “Bonita, não é?” Geraldo concorda: “Linda!” Então, pousando a mão no braço do noivo, a pequena continua:
— Por enquanto, Alicinha é criança. Mas daqui a um ano, dois, vai ser uma
mulher e tanto.
— Um espetáculo!
Sorriu, triste:
— Um espetáculo, sim! — Pausa e, súbito, tem uma sinceridade heróica: Há
de ser mais bonita do que eu.
Geraldo interrompeu:
— Protesto!
Foi quase grosseira:
— Não me põe máscara, não! Eu tenho espelho, ouviu?! Agora, que sou tua
noiva, quero te dizer o seguinte.
— Fala.
E ela:
— Você é homem e eu sei que esse negócio de homem fiel é bobagem. Mas
toma nota: se você tiver que me trair, que não seja nem com vizinha, nem com amiga, nem com parente. Você percebeu?
Surpreso e divertido, exclama:
— Você é de morte, hein?

AS IRMÃS

Havia entre as duas uma diferença de quatro anos; Dagmar tinha 17,Alicinha
13. Até então, Geraldo via a cunhada como uma menina irremediável. No fundo, talvez imaginasse que ela seria para sempre assim, criança, criança. A observação da noiva o apanhou desprevenido. Pouco depois, olhava, para Alicinha, com uma nova e dissimulada curiosidade. Sentiu que a mulher, ainda contida na menina, começava a desabrochar. Esta constatação o perturbou, deu-lhe uma espécie de vertigem. Na hora de sair, despediu-se de todos. A noiva veio levá-lo até o portão.
Ao ser beijada na face, disse:
— E não se esqueça: Alícinha é sagrada para você!
Era demais. Doeu-se e protestou:
— Mas que palpite é esse? Que idéia você faz de mim? Sabe que, assim você
até ofende?
Cruzou os braços, irredutível:
— Ofendo por quê? Os homens não são uns falsos?
— Eu, não?
Replicou, veemente:
— Você é como os outros. A mesma coisa, compreendeu?


Continua…

P&T 08/12/2009

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Mudanças em pecados e tragédias.

Maiores informações em breve.

Agradeçam a Nelson Rodrigues por mim!