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Diabólica – Parte 2 10/12/2009

Posted by admivan in Leitura, Textos.
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Autor: Nelson Rodrigues

Livro: A vida como ela é

Conto: Diabólica

PARTE 2

FAMÍLIA
Mas quando Dagmar confessou, aos pais, que advertira o noivo, foi um deus-nos-acuda. A mãe pôs as mãos na cabeça: “Você é maluca?” Quanto ao pai, passou lhe um verdadeiro sabão:
— Foi um golpe errado. Erradíssimo!
— Eu não acho.
O velho tratou de ser demonstrativo: “Você pôs maldade onde não havia!
Despertou a idéia do seu noivo!” Replicou, segura de si:
— Papai, eu sei muito bem onde tenho o meu nariz.
O pai andava de um lado para outro, nervoso. Estacou, interpelando-a:
— E agora com que cara o teu noivo vai olhar pra tua irmã? Vocês, mulheres, enchem! E, além disso, parta do seguinte princípio: uma irmã está acima de qualquer suspeita! Família é família, ora, bolas!
E Dagmar, obstinada:
— Meu pai, gosto muito de Alicinha. E uma pequena ótima, formidável e
outros bichos. Mas intimidade de irmã bonita com cunhado não! Nunca!
CIÚMES DOENTIOS
Num instante, criou-se o caso no seio da família. Não houve duas opiniões.
Segundo todo o mundo, aquilo não era normal, não podia ser normal. Um dos grandes argumentos foi a idade de Alicinha: “Como pode? Como pode?” O pai, mascando o charuto, argumentava: “Que você desconfie de todo mundo, até de poste, vá lá! Acho que uma mulher deve defender com unhas e dentes o seu homem! Mas irmã é outra coisa! Irmã é diferente! Na sua tristeza, ela replicava: “O que eu não sou é burra!” E o pai: “Nem sua irmã, nem seu noivo merecem isso!”
Por fim, já se falava, abertamente, em caso. Um primo da pequena, que era pediatra, sugeriu:
— Por que é que não levas Fulana a um psiquiatra?
Ela acabou indo, vencida pelo cansaço da própria vontade. Lá, o psiquiatra
depois de um interrogatório medonho, chega à seguinte conclusão: “O negócio é extrair os dentes!” O pai da pequena caiu das nuvens, chorou, amargamente, o dinheiro da consulta:
— Mas que animal! Que palhaço! — e, jocoso, criava o problema: — Isso é
psiquiatra ou é dentista?
Mas o fato é que, pouco a pouco sem sentir e sem querer, Dagmar foi-se
deixando dominar pela pressão da família. O próprio noivo colaborou nesse sentido.
Era hábil:
— Você não precisa ter medo de mulher nenhuma. Pra mim, não existe no
mundo mulher mais bonita do que você. Palavra de honra!

O MAIO

Só quem não se dava por achada e parecia ignorar o disse-que-me-disse era a própria Alicinha. Tratava a irmã e o cunhado com a mesma naturalidade. E era tão sem maldade, tão inocente, que, certa vez, comprou um maio fabulosíssimo e apareceu, com ele, na sala, diante de Dagmar e do Geraldo. Foi uma situação pânica.

Por um momento, o embasbacado cunhado não soube o que dizer, o que pensar. Empalidecera e… Girando como um modelo profissional, Alicinha perguntava:
— Que tal?
Por uma fração de segundo, Dagmar pensou em explodir. Mas convencera-se de que precisava reeducar-se; dominou o próprio impulso. Com um máximo de naturalidade, admitiu: “Bonito!” O atônito, o ofuscado, o desgovernado Geraldo, gemeu:
“Infernal!” Mas quando deixou a casa da noiva, nesse dia, ia numa impressão profunda.
Mais tarde, no bilhar, com uns amigos, fez o seguinte jogo de palavras:
— Não há mulher mais bonita que uma cunhada bonita!

continua…

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Descanse em paz 23/02/2009

Posted by admivan in Textos.
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1 comment so far
girlsad
circulo1
Um olhar vago pela sala:

tudo está vazio. Nada se move.

O fino fio da espada da solidão

perfurou a vida daquela pobre moça

por tempo demais.

A cadeira sobre seus pés ameaçava tombar,

mas ela conseguiu controla-la:

não era hora de cair, não ainda.

suas mãos encontraram a lâmpada

e sua vida encontrou sua mente.

Pensou naqueles garotos tolos

que um dia conseguiram chateá-la.

Pensou naquelas garotas todas

que um dia resolveram ameaçá-la.

Lágrimas escorregavam pelo seu rosto:

não deveria ser assim, mas era.

Lembrou-se do quanto sentia-se sozinha

e do quanto sozinha sofria.

Suas mãos desceram da lâmpada para seu pescoço,

ligados apenas pela gravata do pai.

Pai que a ignorava algumas vezes,

e que a humilhava nas outras.

Pai que não se opôs quando

roubaram seu maior tesouro.

Pai que assistiu tudo, rindo com os amigos.

Pai que agora estava fora.

Olhou novamente pela sala,

sentiu que sentiria saudades,

mas não hesitou:

pulou.

E aqueles que a amavam de verdade

não tiveram nem uma palavra de despedida.

Ela simplesmente se foi

e ninguém sabe o porque.

Talvez agora, em seu descanso,

a garota tenha paz.